Álcool é a droga mais consumida entre adolescentes

A indústria do álcool e da propaganda contrariamente a indústria do fumo, não está limitada a horários específicos. A propaganda de bebidas alcoólicas no Brasil é regulada pela lei n. 9,294, de 1996. No entanto somente é considerada bebida alcoólica aquelas com mais de 13 GL, ou seja, exclui cervejas e vinhos.

Assim as propagandas de cervejas continuam sendo vinculadas e tornando-se a porta de entrada no mundo do alcoolismo.

Assim transcrevi uma reportagem esclarecedora que fala sobre os efeitos das bebidas alcoólicas em nossos adolescentes e as consequências deste consumo.

Kátia Stringueto, editora especial

Qual é o vício do adolescente? Para responder a essa pergunta, autoridades de saúde européias fizeram uma pesquisa envolvendo jovens de 14 a 24 anos. O resultado, divulgado no final de março, revelou que os galeses são os líderes no consumo de álcool, os austríacos estão no topo do ranking dos que mais fumam e os ingleses e galeses despontam no uso de maconha e LSD (ácido lisérgico). No Brasil, alguns levantamentos provam que o consumo de álcool é o problema mais freqüente entre os adolescentes do país.

De acordo com dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), que funciona na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o álcool está enchendo cada vez mais o copo de adolescentes. O Cebrid coordenou o mais amplo estudo já realizado para verificar o uso de drogas nessa faixa etária. O levantamento foi feito em 1997 em dez capitais (Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo). Foram entrevistados 14.636 estudantes de 10 a 18 anos e nada menos do que 15% deles responderam fazer uso freqüente de bebidas alcoólicas (seis vezes ou mais no mês). Dessa porcentagem, 7% bebem vinte ou mais vezes por mês. O cigarro foi o vício que ficou em segundo lugar (citado por 6,2% dos adolescentes). A maconha é usada por 1,1% dos entrevistados.

Lei existe, mas não é cumprida

O acesso fácil à bebida alcoólica – beber é aceitável e até incentivado em festas e comemorações – é um dos motivos para esse quadro. “Apesar de a lei nacional proibir que um menor de 18 anos compre bebida alcoólica, é provável que não exista bar no Brasil onde um adolescente de 15 anos seja impedido de comprar uma garrafa de cerveja”, diz o biólogo Ricardo Tabach, pesquisador do Cebrid.

É, sem dúvida, um ponto de partida para a instalação do vício. A lei não é seguida porque, culturalmente, o álcool não é tratado como droga. Segundo o psiquiatra José Carlos Fernandes Galduróz, também pesquisador do Cebrid, o primeiro gole é precoce. “Na faixa de 10 a 12 anos, 51% dos alunos informaram já ter experimentado álcool na vida. Vimos que 34% das crianças beberam pela primeira vez na própria residência e a bebida foi oferecida pelos pais”, diz. “É cedo demais. Esquece-se de que o álcool é uma das drogas que mais problemas traz para a saúde pública.”

Os números não deixam dúvida. A dependência do álcool afeta de 5 a 10% da população adulta brasileira; 90% das internações hospitalares por dependência são decorrentes do uso de álcool e 70% das pessoas que tiveram morte violenta na cidade de São Paulo tinham bebido antes. Entre jovens de 15 a 24 anos, os acidentes relacionados com o álcool são a principal causa de morte.

O que leva o jovem a beber

As razões para que um adolescente comece a beber são basicamente três: fatores biológicos, psicológicos e sociais. Num primeiro momento, o álcool provoca uma sensação prazerosa que faz a pessoa se sentir bem e autoconfiante. Em uma fase da vida tão instável e insegura quanto a adolescência, a bebida serve de muleta. “O álcool deixa o garoto mais desinibido para se aproximar de uma colega, por exemplo”, diz Tabach.

Ao lado desse aspecto biológico – a droga produz bem-estar físico – há uma pressão social da parte dos amigos. Nessa idade, a turma tem mais influência do que em qualquer outro período. “Em geral, quem no grupo não bebe um chopinho é visto como careta”, lembra Tabach. Quanto aos fatores psicológicos, a adolescência também é um prato cheio. Muitos adolescentes tentam mergulhar na bebida como forma de fugir das frustrações amorosas, de lidar melhor com o sentimento de rejeição e de trabalhar a necessidade de auto-afirmação, típica da idade.

A influência da genética

Pesquisas recentes têm mostrado que a genética é um item poderoso na propensão à dependência alcoólica. Acredita-se até que exista um gene do alcoolismo. A Universidade da Califórnia (EUA) descobriu que filhos de alcoólatras têm maior resistência à bebida. Ou seja, precisam de uma quantidade maior de bebida para ficar “grogues”. “Teoricamente, o filho herdaria uma constituição física capaz de metabolizar o álcool de maneira mais prazerosa”, explica o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) do Hospital das Clínicas de São Paulo. A pessoa bebe mais sem que se sinta mal. E a chance de se tornar dependente, nesses casos, é maior. “O risco de um jovem ter problemas com a bebida é quatro vezes maior quando o pai ou a mãe é alcoólatra”, revela Andrade.

Em geral, 80% dos usuários de álcool têm uma relação normal e esperada com a bebida (vai ser utilizada em uma situação especial, para diversão); 10% sofrem conseqüências desagradáveis, como azia, e ficam embriagados mais rapidamente porque a bebida não é bem metabolizada; e 10% têm uma relação extremamente agradável com a bebida, sentem mais prazer e toleram melhor a substância. Esses últimos são, portanto, os mais vulneráveis à dependência.

Síndrome de dependência

Quando o adolescente começa a ter problemas com o álcool, passa a apresentar alguns sinais típicos de dependência:

  • Consumo de maior quantidade de bebida do que era sua intenção. Em vez de uma cerveja, por exemplo, acaba tomando três, cinco, dez.
  • Redução de atividades familiares, escolares, sociais. A prioridade é o consumo e a procura pela bebida. O adolescente mata aula ou gasta o dinheiro do lanche com o álcool, por exemplo.
  • Desejo de parar até pode existir, mas ele não consegue retomar o controle da situação. A necessidade de beber é mais forte que o desejo de parar.

Conseqüências

Depois da ingestão, 98% do álcool é absorvido. A bebida vai para o fígado, onde é transformada em acetaldeído e ácido acético. Essas substâncias passam para a corrente sangüínea e daí chegam ao sistema nervoso central. No início, essa ação provoca a liberação de substâncias responsáveis pela sensação de euforia. Mas à medida que se continua a beber, o álcool tem efeito depressor do sistema nervoso. “Começa a dar uma sensação de sonolência, letargia, redução de reflexos e da acuidade visual e uma tendência a confidências. A pessoa perde o senso crítico e a noção exata do que pode ou não falar”, explica Tabach.

De uma forma simplificada, o álcool altera o equilíbrio do sistema de neurotransmissores (substâncias que fazem a comunicação entre as células nervosas). Isso altera as funções cerebrais e, conseqüentemente, as funções orgânicas. Os batimentos cardíacos, por exemplo, ficam prejudicados. No fígado, onde é metabolizada a maior parte do álcool, a sobrecarga tem efeito deletério sobre as células hepáticas. Há prejuízo na digestão e, em graus elevados, uma alteração grave do fígado conhecida como hepatite alcoólica.

A lista de efeitos colaterais da bebida em excesso é grande. E, além de problemas físicos, engloba problemas físicos, psicológicos e sociais. São eles:

  • Físicos: gastrite, pancreatite, cirrose hepática, insuficiência cardíaca, pressão alta e encolhimento cerebral por destruição de neurônios, o que leva a deterioração intelectual, perda de memória e demência.
  • Psicológicos: nervosismo, irritabilidade, insônia, falta de concentração, delírio, depressão.
  • Sociais: perda de produtividade, ausência no trabalho, briga com familiares e amigos, gastos excessivos, perda de responsabilidade.

Fonte: Livro Anjos Caídos – Como Prevenir e Eliminar as Drogas da Vida do Adolescente, de Içami Tiba (Editora Gente).

Como a família pode ajudar

O adulto leva de dez a quinze anos para se tornar alcoólatra. O adolescente, em média, leva menos tempo. Mas isso depende da freqüência com que bebe, do tipo de bebida (as destiladas são piores, porque contêm maior concentração alcoólica) e da velocidade da ingestão (quanto mais rápido, pior). “Na desconfiança de que o filho está bebendo além da conta os pais devem abordar o assunto pelo viés da saúde, do autocuidado e da auto-estima”, explica Arthur Guerra. Não adianta recriminar, é óbvio. “Em geral, jovens que possuem alguma qualidade de vida, isto é, respeitam o próximo, as suas vontades e as dos outros, têm maiores chances de respeitar o álcool e entender seu uso como algo recreacional”, diz o psiquiatra.

No livro Anjos Caídos, do psiquiatra e psicoterapeuta Içami Tiba, há um trecho que diz que “uma pessoa nunca deixa de comunicar o que se passa consigo. Se não for pelas palavras, fala pelo comportamento, pelos gestos, expressa pelo corpo. Logo, se um filho não diz por onde anda, suas atitudes, seus gestos e seu corpo podem estar gritando para que seus pais consigam ouvi-lo. Com certeza, é possível saber muito mais sobre a festa na volta do que na ida”.

O tratamento mais eficaz é multidisciplinar e costuma levar meses. Inclui acompanhamento médico, psiquiátrico e terapia em grupo que reúne os pacientes para a discussão e colaboração em problemas comuns. A finalidade é compartilhar dificuldades e encontrar soluções para facilitar a abstinência. As internações só são indicadas em casos muito graves.

Em geral, são quatro fases de tratamento:

Desintoxicação Fase de abstinência sob supervisão médica dos efeitos do consumo de álcool. Fisiologicamente esta fase dura poucos dias, porém a vontade de consumo pode persistir. O uso de medicações reduz o desconforto. A desintoxicação estabiliza o paciente permitindo que ele ingresse na próxima fase de tratamento.
Reabilitação Os pacientes aprendem a modificar seu comportamento para manter a abstinência. Grupos de ajuda mútua devem ser incluídos. Reabilitação Os pacientes aprendem a modificar seu comportamento para manter a abstinência. Grupos de ajuda mútua devem ser incluídos.
Cuidados continuados Composta de propostas para a manutenção do estado de sobriedade frente às dificuldades da vida.
Prevenção de recaídas Estratégias que podem ser aplicadas conjuntamente ou logo após o tratamento primário (desintoxicação e reabilitação). Em geral essas estratégias têm o objetivo de lidar com as situações em que os pacientes terão possibilidade de recair, ajudando-os a modificar seu estilo de vida. São efetivas na redução da exposição dos indivíduos às situações de risco, fortalecendo suas habilidades de evitar a recaída.

Fonte: Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), do Hospital das Clínicas de São Paulo.
 

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Pericles Ramos

Olá, sou Pericles Ramos, sou Terapeuta Familiar e Palestrante na área da Família, formado em Filosofia e Teologia. Há 27 anos, escrevo artigos para sites e apresento programas em várias rádios.

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